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Visita às Minas de Aljustrel, reportagem de Eduardo Coelho, publicada no "Diário de Notícias" em 1876
Património 01 setembro, 2020
noticia Estação da Mina de São João
Estação da Mina de São João

Recolha de Francisco Colaço

 

I

 

A estação do Terreiro do Paço parece uma barca de banhos. – Os meus companheiros de viagem. – O Tavares dos foguetes de guerra. – O sr. Carlos Ribeiro e o homem antediluviano. – Abaixo a ponte velha do Barreiro. – O psálterio dos cantos bíblicos a executar o fado. – Às minas!

           

Os meus amigos da direcção da companhia Transtagana haviam tido a amorável e higiénica lembrança de me arrancarem a este enervamento da vida cidadã e jornalística. Levavam-me desta atmosfera confinada e asfixiante do escritório de uma redacção para o ar livre, o céu aberto, o campo, onde se absorve nos pulmões um ar mais vivificante que o que circula num edifício antigo, de tectos baixos, sob os quais respiram a um tempo cem pessoas fazendo-lhes concorrência na viciação e aquecimento do ambiente uns cinquenta bicos de gás. E todavia neste edifício, que é desde o século passado um empório das letras, têm acampado as mais brilhantes individualidades literárias, uma esplendida cruzada de jornalistas: Garrett, Castilho, Rebello da Silva, Mendes Leal, Ribeiro de Sá, Tullio, Lobo de Ávila, Rio Tinto, D. António de Lacerda, aqui batalharam ardidamente com a pena em prol da civilização popular, e dos progressos morais, materiais e políticos do seu país.

 

É que a vida jornalística está longe de ser uma delícia. Diga-se, porém, o adeus à oficina das nossas lucubrações, e: ao campo, ao monte!

 

Às seis horas e meia da manhã reunimo-nos na estação das linhas férreas do sul e do sudeste, no Terreiro do Paço, que apresenta o balneário aspecto de uma barca de banhos, e cuja construção foi evidentemente inspirada nesse género de arquitectura fluvial, que não deixa, apesar de tudo, de ser pitoresco. Mas ali, em frente dos torreões, do Arco Triunfal e do medalhão de Sebastião de Carvalho, é quase um atentado aquela construção.

 

Quando entrei, andava ali uma dama francesa idosa, de cabelo encaracolado, a redemoinhar no grupo que se acotovelava ao pé do postigo, da venda dos bilhetes, a perguntar delicadamente a uns e a outros:

 

Tém à bóndade de me dire si este ligne conduit à la estacion de Portalegre ?

 

As respostas sucessivas às suas maneiras delicadas eram esta:

 

– Arrede, arrede d’aqui, mulher, deixe passar quem passa!

 

– Não esteja a empatar, senhora, que a gente tem pressa!

 

– Quem não sabe onde são as estações não se mete a viajar!

 

E choviam empurrões e maus modos e ninguém dava à aflita estrangeira a indicação que pedia.

Era a rudeza de trato, a grosseira educação de certos indivíduos a manifestar-se em todo o esplendor da sua brutalidade.

 

E a pobre senhora, resignada e silenciosa, até a isso respondia:

 

Merci, mr.

 

Alguém, por fim, lhe ensinou que tinha de dirigir-se à linha de leste, e o modo como.

 

Fez-se o sinal da partida, e entrámos no vapor, que devia transportar-nos à ponte do Barreiro. O céu estava enublado. Os raios do sol, interceptados por um toldo de nuvens pardacentas, os cúmulos-nimbos, mal prenunciavam a ardente temperatura que nos havia de mergulhar num longo banho de suor durante o trajecto até à vila de Aljustrel, termo desejado da nossa viagem.

 

O vapor não ia cheio de passageiros; nem estes apresentavam muita variedade de tipos. Um cónego da sé de Évora, menos gordo do que seria de esperar, um padre de uma freguesia rural, dando-se ares de elegante, um negociante de porcos e carneiros, alguns aficionados da tauromaquia, que iam gozar as peripécias de uma tourada em Beja, o Tavares dos foguetes de guerra, homem gigantesco de formas e sinistro de profissão, tendo por ideal das suas ardentes aspirações a produção da morte rápida e infalível… do inimigo, e a prolongação da vida de seu amigo, para o que despende harto cabedal de palavras melífluas e de sorrisos, eis, com duas ou três raparigas que o matizavam, o conjunto do quadro dos passageiros do vapor D. Afonso.

 

O nosso grupo especial compunha-se dos seguintes personagens: Júlio José Pires, carácter sisudo, assombreado por uma dor cruel, director e gerente da companhia, de cujos negócios tem um largo tirocínio, e que lhe há consagrado todos os esforços da sua inteligência e zelo. Todo embebido na exploração dos elementos da sua prosperidade, vive nela e para ela.

 

António José de Sousa Azevedo (Algés), também director e sub-gerente, chefe de uma importante repartição no ministério das obras públicas, herdeiro de um nome ilustre, carácter despreocupado e sério; e génio jovial e insinuante.

 

Miguel Carlos Correia Paes, engenheiro chefe da tracção e conservação da linha férrea do sudeste, homem chão e sem artifícios, enérgico, anedótico, sabendo muito do seu oficio e muito cuidadoso dos seus deveres.

 

Carlos Ribeiro, director da companhia, e secretário da junta consultiva de obras públicas e minas, outrora, director da comissão geológica, chefe da secção geológica e redactor das cartas na comissão geodésica, deputado às cortes na legislatura de 1870 e autor de importantíssimos estudos científicos. Carlos Ribeiro é o que pode chamar-se entre nós um sábio; e tem a naturalidade, não lhe chamo modéstia, a simplicidade dos homens que valem. Alia a uma doce afabilidade de maneiras as delicadezas de uma dama, a sensibilidade de uma criança e a sisudez do pensador. Sabe que há-de morrer um dia, que há-de, como todos os simples mortais, entrar na eterna evolução da matéria, e cheio de heroísmo disse consigo: – «Já que tenho de ir aí para o teu seio, ó terra, hás-de permitir primeiro que eu conheça um pouco o estado dessas entranhas, a sua estrutura e os elementos que a compõem. Irei um dia, ínfimo átomo, juntar-me aos muitos biliões deles que aí se acumulam no teu ventre, mas quero conhecer primeiro a natureza e a índole desses meus irmãos.» E pôs-se a devassar os segredos da terra com uma pertinácia e uma coragem heróicas, que oxalá só acabem daqui a uma cincoentena de anos.

 

Com a história, a ciência e a lógica, alumiado pelo método indutivo, estudou os fenómenos do Fogo do globo e mais tarde desceu ele próprio com o alvião e a pá às camadas mais remotas da crosta terrestre, ao Terreno terciário e quaternário das bacias do Tejo e Sado, a acordar as gerações ignoradas, a conversar com o homem contemporâneo do Elephas primigenius, do Rhinoceros lichorhinus, animais que viveram antes do dilúvio, segundo a crença dos sábios que nestes últimos 30 anos se têm entregado aos interessantes estudos da arqueologia pré-histórica. Recolheu alguns restos da herança milenária dos Antepassados de Adão, como lhes chama um belo livrinho que possuo sobre os trabalhos de Boucher de Perthes; colheu no seio dos terrenos que explorou vários instrumentos de sílex lascado, de que os paleontologistas modernos crêem que usava o homem pré-histórico, na idade da pedra, isto é, facas, raspadeiras, armas cortantes e de arremesso, feitas de pederneira; falou enfim em espírito com os avós de Adão e Eva, o que é a mais subida de todas as honras.

 

Mas Carlos Ribeiro não limita a sua existência a interrogar, por curiosidade científica, o interior da terra. Lisboa deve-lhe o importante benefício de poder beber cada dia mais 80 anéis de água nesta bárbara estiagem. Ele estuda também as necessidades e os fenómenos positivos da superfície do globo. Foi ele que com o Sr. Nery Delgado fez aquele erudito relatório do estado da arborização geral do país, no qual descreve o solo do continente, a sua natureza, relevos orográficos, qualidades e propriedades, estado de cultura ou incultura; e subindo ao âmago dos problemas de administração pública, estudou os defeitos e desigualdades do imposto predial num relatório parlamentar, que não é a obra de um sectário, mas o trabalho de um cidadão desinteressado que ambiciona os progressos da sua terra. Eu não conhecia pessoalmente este homem, mas era seu antigo devoto. Por isso apenas lhe apertei a mão comecei a encará-lo com a maior curiosidade, e ia-me deliciando com as luminosas réplicas que lhe provocava ao falar-lhe no homem das cavernas, de cuja existência no nosso solo Nery Delgado crê ter encontrado atestados incontroversos.

 

Mas eis-nos chegados à ponte do caminho-de-ferro no Barreiro, atestado negro, lodacento e carunchoso de falta de unidade de pensamento, de critério e de zelo dos nossos governos. Uma gare aparatosa, vasta, arrebicada, com seus laivos de monumental, mas que não dá a honra aos passageiros de nela porem o pé, e uma ponte de madeira, oscilante, roída, escavacada, enorme, desabrigada, feia, inconveniente e maçadora! A exploração da linha dá ao Estado um saldo anual de duzentos e tantos contos sobre a despesa, mas os gerentes do Estado só se lembram em geral desta linha para de vez em quando a… porem no prego! A imagem é forte, mas exacta. Ouvimo-la a um passageiro do vapor, ao contemplar aquela feia coisa. Faz-se porém agora um enorme aterro e conquista ao rio, para formar um cais espaçoso e decente, e colocar uma ponte que possa ter esse nome e seja digna de uma linha férrea de tamanha importância, como aquela, destinada a pôr em rápida comunicação as províncias do sul com as do centro e do norte. Miguel Paes afaga na mente a glória de ver realizado esse melhoramento.

 

A travessia do rio fizera-se sem acidente. Afagávamos o olfacto e cheiro que se serviam no restaurante do vapor, encantara-nos os olhos o belo panorama do rio, e mais ou menos nos tinham iludido os ouvidos os sons agudos e brincados de psálterio, música obrigada deste passeio fluvial. Lastimemos a sorte deste instrumento patriarcal. Ele, que outrora, nos templos bíblicos, tangia as músicas dos psalinos místicos e perfumados a linguagem casta e severa dos louvores de Jeová, ver-se agora constrangido a atroar os ares com a valsa do Beijo a Marselhesa e o Fado de Pedrouços

Quantum mutatis ab illo.

 

Entrámos, os quatro meus excelentes companheiros, e eu, para uma carruagem de 1ª classe, e o nosso grito de guerra foi:

 

– Trinquemos um bocado de farnel, e … às minas.

 

II

 

Descarrilamento. – Estações do Barreiro a Beja. – Tradições históricas. – Os engenheiros. – A linha da companhia. – Júbilos de Aljustrel. – Chegada.

 

Um acidente, pouco vulgar naquela linha férrea, nos fez estar entaipados entre duas elevadas barreiras próximo da Casa Branca; no ponto mais árido e mais cálido do trajecto do Barreiro a Beja, e justamente à hora do meio-dia, quando o sol no zénite dardejava directamente os seus raios sobre nós, e o céu estava inteiramente limpo de nuvens. Ergueu-se um denso turbilhão de poeira, que escureceu a via, ouviu-se murmurar os passageiros, o maquinista suspendeu a máquina, e o comboio parou. Miguel Paes, o engenheiro, que estava saboreando connosco, na mais saudosa camaradagem, uma posta de linguado, deu um pulo, largou o linguado, abriu a portinhola do wagon, e desceu com velocidade eléctrica. Estalara o eixo de um wagon novo, carregado de madeira; as rodas caídas escangalharam o leito da via; dois carros haviam descarrilado. Alguns impacientes apostrofavam injustamente o estado da linha. Miguel Paes fez imediatamente partir a máquina com os wagons da frente para a estação próxima, a buscar trabalhadores. Carlos Ribeiro desceu a ver a causa do acontecimento. Quando o mirei a palpar a parte fracturada do eixo, que era de ferro e de formidável grossura, pareceu-me ver um médico a tomar o pulso a um doente. Efectivamente ele diagnosticou: fractura resultante de resfriamento na fundição. Gastaram-se umas horas em reparar os estragos, duas horas durante as quais estivemos num banho de vapor de efeitos tão sudoríferos como os do Dr. Nilo, e suportando uma temperatura de talvez 35º. Recordei-me então com saudade do calor da redacção. Quando Miguel Paes voltou íamos a pedir-lhe uma indemnização… de lenços e ventarolas, mas, vendo que ele vinha ainda mais suado do que nós, demos-lhe um refrigério de vinho e água. Ao fim de dez horas havíamos percorrido os 161 quilómetros de Lisboa a Beja, tendo passado pelas seguintes estações, de que falarei… a vapor:

 

Barreiro, vila e cabeça de concelho, graça esta que deve à influência do seu dedicado patrono e meu patrício o estadista Joaquim António de Aguiar. Nos seus arredores, onde há sete férteis quintas, produz-se muito vinho e boas frutas e hortaliças. O concelho tem 4.489 moradores e 1.200 prédios rurais.

Lavradio, vila incorporada no concelho precedente, pátria dos afamados vinhos do seu nome, dos quais se bebe no país, e fora o tresdobro da sua produção, o que quer dizer que alguns especuladores os baptizam, com água ou os viciam com zurrapa. Tem oito boas quintas, e produz muito trigo e algum gado. Foi D. José I quem criou o marquesado desta vila, que deu homens muito letrados.

 

Alhos Vedros e Moita, aquela situada numa planície arenosa, está sobre um mole esteiro do Tejo, e ambas as vilas férteis em cereais e gado.

 

Pinhal Novo, cujo nome diz tudo, Poceirão e Pegões, sítios sinistros pelas recordações do tempo em que os invejosos dos bens do próximo os procuravam para centro dos roubos e morticínios, campos sáfaros e maninhos, desertos de vegetação, apesar dos prodigiosos exemplos de colonização de José Maria dos Santos, que sabe transformar as charnecas em campos cultos e ferazes, plantando às 50.000 oliveiras.

 

Vendas Novas, já em franco Alentejo, freguesia de 1.200 habitantes no concelho de Montemor-o-Novo, celebre hoje pelo campo de instrução e escola prática de artilharia, que tem no orçamento a verba de seis contos.

 

Montemor-o-Novo, florescente e fértil vila mandada povoar por D. Sancho I, edificada sobre três montes, e banhada pela ribeira de Canha, que rega os seus frescos pomares e hortas. Nesta ribeira pretende uma tradição local que foi sepultada a virgem Santa Quitéria, tendo sido precipitada do alto do Monte Mor, com uma pedra de moinho atada no pescoço. Muitas outras terras, porém, disputam a honra de terem sido teatro do martírio dessa virgem cristã. Montemor tem numerosas herdades; é das mais belas povoações desta parte do Alentejo, e tem no seu concelho 17 freguesias com 12.000 habitantes. A sua actividade vale mais que as suas tradições.

 

Casa Branca, a que deu nome o ser estação de linha, e entroncamento para Évora.

 

Alcáçovas, vila de 2.000 habitantes, com hospital, misericórdia e castelo, onde D. Dinis fundara um palácio. Supõe-se que no sítio desta vila existiu outrora uma cidade romana de nome Castreloucos e que os mouros arrasaram.

 

Viana, chamada outrora Viana a par de Évora ou Viana do Alentejo, para a distinguir da actual Viana do Castelo, na vertente de uma colina, onde dizem ter sido fundada pelos galo-celtas, arrasada depois e reconstruída por D. Gil Martins. Tem 1.000 moradores e é cabeça de concelho. O seu terreno é fresco e produtivo.

 

Vila Nova da Baronia, vila de concelho de Alvito com alguns edifícios antigos e 900 moradores.

 

Alvito, que a ribeira de Odivelas fertiliza, e sobre a qual passa uma forte ponte de pedras, conserva ainda o seu antigo castelo e histórico palácio, cujas salas ultimamente têm sido retocadas. Esse castelo é tido como um dos mais puros tipos de arquitectura medieval. É uma vila importante, cabeça de concelho, e tem 1.800 habitantes.

 

Cuba, vila que hoje conta 3.700 moradores, e é cabeça de concelho, tinha ao princípio do século passado apenas 900, e era uma simples aldeia. O trabalho, a actividade dos seus habitantes, e a situação corográfica a engrandeceram, e quadruplicaram em século e meio a sua população.

Beja, é a mais importante povoação deste percurso. A cidade histórica avista-se ao longe assentada num alto-relevo, circundada por um cinto de muralhas romanas, em que o rei lavrador mandava assentar 40 torres, é guardada pelo seu elevado castelo. Possui notáveis edifícios, principalmente conventos. Entre as tradições de que se afama, conta a de ter sido fundada pelos celtas, denominada Pax Julia pelo imperador Júlio César, que algumas vezes ali celebrou pazes com os generais lusitanos, caudilhos das hostes da independência e liberdade das suas terras; haver dado berço a S. Sesinando, martirizado em Cordova, e o túmulo ao infante D. Fernando, e à infanta D. Beatriz, pais de el-rei D. Manuel, o Venturoso. O aspecto da cidade é melancólico. Tem o tom vetusto do queimar dos séculos; mas, apesar das nobres cãs que lhe branqueiam a fronte, ela aceita jubilosa e de braços abertos o progresso, e a par dos seus brasões seculares, pendura as condecorações das conquistas do trabalho moderno. Na estação de Beja recebemos o Sr. Garcia Fidio, inteligente director das obras públicas do distrito, e que ia com o Sr. Miguel Paes examinar oficialmente a linha e a ponte da companhia.

 

Agora o comboio retrocedeu para levar-nos à estação da Figueirinha, no ramal de Beja a Casével. Estalam alguns foguetes. Eis-nos chegados à estação provisória da linha férrea particular da companhia de Mineração Transtagana; eis-nos entrados nos domínios dessa corajosa empresa que, construída há mais de quinze anos, tem sabido esperar pacientemente os frutos do farto capital de dinheiro e trabalho semeado no interior das ricas montanhas que explora. Não passamos sem saudar a casa de Alonso Gomes, quartel-general de um outro soldado ardido do trabalho. Alonso Gomes é o empresário da carreira de barcos a vapor do Algarve. Vêm esperar-nos ao caminho os seguintes cavalheiros:

 

O antigo director José Joaquim de Lemos Sousa e Castro, hoje pagador da companhia em Aljustrel e que ama a empresa como quem a viu nascer, a acalentou no berço.

 

J.A.C. das Neves Cabral, engenheiro da empresa, homem que alia nos seus conhecimentos científicos um largo curso prático, e visitas de estudo aos principais centros mineralógicos do país e do estrangeiro. A julgar pela sua incansável dedicação, parecia ele a encarnação dos desejos de todos os accionistas reunidos. É um carácter aberto, nervoso e frenético, e a ele cabe uma parte honrosa no impulso que determinou a nova fase de grande actividade em que a companhia entrou.

 

Rodolpho Mouat, engenheiro residente nas minas de Aljustrel. Extremamente modesto, e retraído, tem podido provar numa larga solicitude no desempenho do seu cargo, os conhecimentos que adquiriu na escola de minas de Londres onde fez o seu curso, e nos seus estudos subsequentes, teóricos e práticos.

 

Alexandre Bayer, o químico da companhia, austríaco, e educado na Alemanha onde fez o seu curso, homem modesto e laborioso, que encerra a sua vida no seu laboratório.

 

Mais dois empregados da companhia, um dos quais, cujo nome não nos recorda, é útil e inteligente auxiliar, e pessoa da maior confiança da direcção.

 

Além da gare provisória, que é um vasto barracão de madeira, fumegava a locomotiva que nos devia transportar a Aljustrel, e no centro do barracão, ao lado de outra locomotiva em descanso, fumegava numa terrina uma farta canja com a qual todos reparámos os estragos que o calor e a poeira da viagem podiam ter produzido na nossa economia. Em seguida trepámos para uns vagonetes armados em char-à-bancs, a máquina lançou o seu silvo, e partiu pela via-férrea da companhia para os grandes estabelecimentos metalúrgicos. Novas girândolas estalaram no ar. O caminho é de via reduzida; o seu leito optimamente balastrado, tem um grande aterro, e uma barreira de certa elevação, uma ponte de ferro de cerca de cinquenta metros, e outras obras de arte secundárias.

 

Nenhuma oscilação se produziu no comboio o que atesta a fixidez da via. As duas máquinas locomotoras, são de elegante forma, feitas na fábrica de Henry Heuches & Cª. A via directa para a mina de São João do Deserto tem 20 quilómetros. Há um ramal para a mina e estabelecimentos metalúrgicos dos Algares com mais de 8 quilómetros.

 

Quando penetrámos nas vastas herdades que a companhia adquiriu por limitado preço para fazer o tratamento dos minérios sem prejudicar a vegetação de campos alheios no sítio denominado os Feitais, que forma uma vasta bacia natural, limitada por um semicírculo de colinas, recebemos mais um passageiro. Era D. Julian Delgado, contratado para dirigir os trabalhos da ustulação dos minérios, trabalhos de que tem largo tirocínio nas célebres minas de Rio Tinto.

 

Aos lados da via acumulava-se agora o povo, ansioso e satisfeito, para saudar no comboio o grande elemento regenerador.

 

Subiam ao ar sucessivas girândolas, e de espaço a espaço ouviam-se salvas de morteiro. O sol tinha descido ao ocaso, mas à esmorecida claridade do dia se pôde observar o interesse e o entusiasmo de uma população que correra toda às colinas adjacentes ao monte de S. João do Deserto, no qual também se agrupam centenas de pessoas para felicitar a companhia Transtagana pelo acabamento da sua linha férrea e os engenheiros que lhe dirigiram a construção com tanto acerto e economia. Por entre as salvas, os foguetes, e os hinos da filarmónica ouvia-se um viva prolongado à empresa, e aos seus engenheiros e empregados. Aljustrel tinha razão.

 

A companhia Transtagana está operando nela uma transformação lenta, acordando-a do seu longo adormecimento e derramando entre o seu povo o ouro a mãos-cheias em troca do minério que, através de muitas fadigas e de um trabalho ciclópico, vão arrancar ao seio dos seus montes. Da sua população de 1.800 pessoas a companhia emprega-lhe toda a parte válida e forte, transforma-lhe as charnecas em fábricas colossais, abre-lhe novos caminhos, faz com que a locomotiva atravesse os seus matagais, põe-lhe ao lado o fio eléctrico e semeia por entre as suas casas de taipa algumas edificações elegantes, que lhe variam o aspecto e lhe dão foros de cidadã.

 

III

 

Eu amo o cobre na pirite, e na moeda de 10 reis. – As minas. − Algares e S. João do Deserto. − Trabalho ímprobo do mineiro. – Descida à cidade subterrânea. Pavor disfarçado. – Recorda-se o “Inferno” de Dante. – Viagem por várias ruas e travessas.  Riqueza metalífera. – Refrigério. – Obséquios. – Até mais ver.

 

Escuso de fazer a apologia do cobre perante uma nação que anda toda azafamada na conquista do pataco, do vintém e dos dez réis. Eu por mim adoro-o, tanto no seio da pirite como na moeda de dez réis; não ajoelho servilmente aos pés do bezerro de ouro, mas beijo agradecido esta moeda de cobre, que para mim encerra a solução de um elevado problema económico. Depois disto amo o cobre, nas suas múltiplas aplicações industriais. Fui pois visitar os jazigos onde o metal é colhido, descendo, humilde e respeitoso, às entranhas da terra que o geram, como se diz que nos geraram também a nós.

 

O que são as minas da companhia Transtagana em Aljustrel? S. João do Deserto, uma delas, é um outeiro de rocha xistosa, em cujo seio se abrigam massas enormes de pirite de ferro cúprica, e que a mão do homem tem perfurado em diversas direcções para conhecer-lhe a riqueza com audácia igual à dos gigantes combatendo contra Júpiter; a outra, a dos Algares, está contida no dorso de uma colina, outrora coroada de moinhos e hoje cheia de aberturas de poços que conduzem às galerias horizontais. São separadas as duas minas por uma distância de 1.500 metros e diz o Sr. Carlos Ribeiro num seu notável relatório que ambas tiveram a mesma origem e pertencem à mesma formação geológica das célebres minas de Tharsis e Rio Tinto, em Espanha.

 

Saibam-se as condições em que eu as visitei para o leitor poder fazer ideia do trabalho martirizante das centenas de operários, que, a troco de um modesto salário, passam a vida escondidos naquelas cidades subterrâneas, haurindo um ar que não circula livremente; não vendo a luz do sol e perdendo de tal arte a noção do dia e da noite que lhes é indiferente trabalhar a qualquer hora, porque o seu sol é a luz mortiça da candeia inglesa, que, por ironia talvez, tem junto ao bico o perfil de um galo, emblema de vigilância. Munido de várias instruções do meu amigo Sousa Azevedo, que conhece as minas como os seus dedos, e que tem estudado com Júlio Pires os segredos da sua administração, em que lhe é habilíssimo assessor, preparei-me para baixar ao seio do Monte dos Algares, por um poço de serviço, que tem o número de ordem 7, e que se pode chamar a rua vertical número 7 da cidade subterrânea que demora a 56, 70, 80, e 100 metros de profundidade da vila de Aljustrel. Fiz a minha toilette: uma grossa bota, de pés acostumados a atravessar as lamas das galerias, uma larga blouse de baeta azul raiada, apta a receber as lágrimas metálicas dos tectos, um boné, e a candeia do mineiro. Como o personagem da cançoneta popular, confiei a Azevedo o velho relógio, sem pensar na necessidade do necrológio, antes cheio de uma valentia digna da musa homérica; e parti paternalmente guiado pelo distinto engenheiro, mr. Mouat, inteiramente confiado à sua honrada protecção, e seguido de um empreiteiro dos trabalhos subterrâneos, homem de longas barbas, mas patenteando uma certa bonomia, que o apresentava como incapaz de qualquer violência. Chegados à abertura do poço, à boca do abismo, o Sr. Mouat desceu o primeiro lanço da escada de mão, e ensinou-me caridosamente a ginástica da voragem, o movimento descendente naqueles estreitos degraus, onde mal cabem dois pés. Desci altivo, de candeia em punho, enlevado na pitoresca figura que apresentava, fumando o meu charuto, blasonando das facilidades do trajecto, e ruminando até o Dante: Un pozzo assai largo e profondo.

 

Ao chegar ao terceiro ou quarto lanço perguntei com certa arrogância, que podia muito bem disfarçar uma estranha comoção, quantos lanços teríamos ainda de descer?

 

– Alguns, tornou Mouat.

 

Estive para escorregar de pura sensibilidade.

 

Ao sétimo lanço o meu paciente Mentor notara que a candeia embaraçava um pouco o seu Telmaco, e aliviou-me daquele já bem grande peso.

 

Ao décimo lanço passara-me a vontade de fumar e de comentar, e quando pus pé no solo da primeira galeria, apenas 56 metros no ventre da montanha, olhei para cima a procurar, em vão, a luz do dia. Comprimi um suspiro, e limpei com a manga o suor que me deslizava em frio. Mouat é um bom coração. Tinha direito a rir-se, mas não se riu. Situação solene. Os meus companheiros pareceram-me uns seres fantásticos. Estive para dizer ao ilustre engenheiro, que era o meu Virgílio nesta selva escura, o que disse Dante do Inferno:

 

Misereri di me

Qual che tu sii, od ombra, od uomo certo.

 

O meu benevolente amigo deu-me de novo a candeia, e começámos a percorrer aquelas escuras vias, por vezes impedidas de montes de calhau dos desmontes e escavações, outras inundadas de água metalizada, e sempre sinistras e abafadiças, com uma pressão atmosférica elevada.

 

A majestade pavorosa da catacumba, sem a suavidade e a branca paz do misticismo cristão.

 

Encarando a serenidade de Mouat pensei um momento na grande coragem e abnegação relativa dos engenheiros de minas, em geral homens de subida inteligência, cheios de habilitações, de alma aberta a todas as aspirações que agitam os outros homens, e consagrando-se voluntariamente a esta vida retirada, e monótona, repartida entre o estudo do gabinete, a aridez do monte e os trabalhos de investigação e perfuração subterrânea.

 

Mouat ia-me dando uma lição de mineralogia prática. Lembram-me algumas noções: o plano que limita a camada do minério na parte superior é o tecto; aquele sobre o qual ela repousa é o muro; a distância destes dois planos indica a possança; o modo de conhecer a direcção das camadas, as falhas, a ganga, o mineral, a salbanda; os pontos fracos ou os interstícios da rocha, onde a entivação se faz necessária à segurança dos trabalhos, tudo ele ensinava modestamente nesta lição prática no âmago do abismo. E entretanto íamos prosseguindo a sombria viagem nas galerias e travessas, passando por novos poços que desciam a outros níveis.

 

Aqui e ali era preciso ir saltitando de pedra em pedra, e guardar as mais rigorosas leis do equilíbrio; em partes tinha de se trepar aos montes de cascalho, e passar quase de rastos, tão estreitas eram as aberturas que os mineiros deixavam. Nalguns sítios encontrávamos os mineiros, os peões, trabalhando por conta dos empreiteiros em várias tarefas, procurando a direcção da massa do minério, ou continuando a escavar as galerias, ou abrindo travessas de comunicação ou alargando a extensa galeria de esgoto, destinada a conduzir ao exterior as águas vomitadas da montanha. Estes trabalhos são feitos simultaneamente a tiro, e a alvião e a escopro, e esclarecidos pelas miríades de faíscas que o aço acende na pedra.

 

É curioso o quadro de uma galeria, alumiada pelas candeias, com as paredes e tectos de cor azulada e esverdeada dos sulfatos, semelhando grutas de malaquite, e aqueles grupos de homens, alguns seminus, rasgando à picareta o seio de minério.

 

O trabalho sombrio e opresso do mineiro, feito sempre à escassa luz da candeia, num ambiente abafadiço, e em geral quentíssimo, jamais interrompido, nem de dia, nem de noite, e só rendendo-se por turmas de operários, é dos mais penosos. É um heroísmo obscuro, consagrado ao engrandecimento do país. É preciso vê-lo de perto para compreender a avaliar:

 

– Já lhes tem faltado o ar? Perguntava o estimável engenheiro aos que atacavam a tiro o extremo de uma galeria.

 

– Por ora ainda não se nos apagou a luz, responderam. E quando damos os tiros saímos um pouco aí para fora.

 

É cheia de perigos esta vida, e os engenheiros directores têm a responsabilidade de muitas existências. Às vezes as paredes ou o tecto das galerias ameaçam desabar, e é necessário imediatamente ampará-los com fortes quadros de madeira; outras vezes a inundação dos poços é subitânea; não raro os assalta a sufocação e o desmoronamento.

 

Mas sente-se um rumor singular perto de nós. São as cubas de esgoto que descem e sobem nos calabres do malacate no interior de um poço para esgotá-lo. Desce uma vazia enquanto a outra sobe cheia; esta apenas chegada à boca do poço, é por um operário assente dentro de um tanque que lhe abre a válvula do fundo, e lhe despeja a água para uma caleira exterior. O malacate, isto é, o engenho de madeira, que põe as cubas em movimento é movido por duas mulas. Mas os malacates estão sendo substituídos por máquinas próprias a vapor, das quais duas já estão assentes, havendo mais uma encomendada.

 

Examinámos a massa mineral do interior deste monte em todas as suas manifestações e pareceu-nos que é de uma possança enorme. Estão reconhecidos talvez perto de 200.000 metros cúbicos de minério, mais de 400.000 toneladas, e isto considera-se a porção mínima da grande massa oculta. O mineral a descoberto representa uma grande riqueza. Em S. João do Deserto, onde a massa é ainda mais importante, está-se fazendo um trabalho à Lessepe. É a exploração a céu aberto. Como no seio do monte o mineral se oculta em massas consideráveis, que não estão longe da superfície, resolveu-se arrancar o denso invólucro de rocha que a contém, desembrulhá-la do seu manto de pedra, descarapuçar o monte, tirar-lhe o capacete de estéril na extensão de uns 160 metros, por 12 a 16 de altura e 9 a 26 de largura. Têm-se feito dois cortes (corta), colossais, pondo a descoberto grandes morros de excelente mineral que representam já muitas centenas de contos de réis. O minério reconhecido nesta mina era em 1873 mais de um milhão de toneladas, nas duas minas cerca de 1.500.000 toneladas; hoje os trabalhos têm novas e valiosas revelações.

 

Saímos da mina dos Algares pela galeria de esgoto, que vai desembocar no sopé do monte, e na extensão de 800 metros. Esta galeria está sendo alargada para nela poderem entrar os vagonetes da linha férrea que aí há-de penetrar para ir buscar o minério que se for tirando quando começarem os trabalhos definitivos de desmonte e levá-lo aos grandes depósitos ao ar livre para ser ustulado, nas grandes teleiras, cujas plataformas, canais e fuminés ali se vêem, lavado, cementado ou triturado, tratado, enfim, pela via seca ou húmida e exportado, conforme for mais ou menos rico em metal.

Depois de havermos tomado um refresco, que a delicada previdência de Júlio Pires nos fizera servir à saída da galeria, entrámos no trem que nos esperava e fomos ver a grande represa de água, os tanques de lixiviação, as teleiras para a ustulação, trabalhos e construções valiosíssimas para o tratamento dos minérios, e onde se lhes aplicarão os mais adiantados processos, sem esquecer o que lhe extrai algumas partículas de prata, processo já experimentado com vantagem pelos Srs. Mouat e Bayer, que é de sua combinação, e de que eles têm o privilégio.

 

Quando regressei desta singular excursão, Bayer, o químico inspirado por Pires e Azevedo, esperava-me de máquina fotográfica assentada para fotografar-me na toilette especial das minas. É uma alta fineza que me levará à posteridade nas asas da… fotografia!

Em seguida foi-me mostrada por Júlio Pires a escrituração das minas, trabalho minucioso quanto possível e de muita clareza, em que tudo tem conta corrente. Vi as diversas oficinas, de carpintaria, serralharia, etc., as casas das máquinas, as bonitas habitações dos guardas e empregados, o palacete… em Aljustrel pode chamar-se-lhe assim… de Mouat; passei pelo Chiado da vila, a rua de Messejana, tudo casas de taipa, onde se ouve continuamente o gemido monótono dos moinhos das colinas vizinhas.

 

À tarde penetrei no túnel de entrada da mina de S. João do Deserto e subi às galerias transversais, onde já foi preciso pedir licença ao vagonete, indo até à travessa do Florêncio, pois todas aquelas ruas ou travessas lá por baixo têm nomes como as de cá de cima: do Elias, do Ferreira, do Julião, etc. Aqui, como nos Algares, há vestígios de trabalhos romanos.

 

Por toda a parte as coisas estão preparadas para começar a lavra em grande força, e já se vêm cá fora empilhadas centenas de toneladas de minério. A introdução do rail foi o sinal de rebate de uma nova fase de actividade e engrandecimento. A companhia tem um largo futuro. A direcção pretende exportar em 1877, 100.000 toneladas de minério. É uma iniciação auspiciosa.

 

Na passagem as termas sulfúreas de S. João do Deserto, afamadas na cura de molestas de pele, e com as quais o povo tem grande fé, menos pelas propriedades terapêuticas da água, que vem das minas da companhia, do que pela circunstância de passar pela ermida. A companhia tem querido fazer ali um estabelecimento asseado e decente, mas a junta de paróquia receia que a água perca a virtude com o asseio.

 

– Ó senhor, estes lençóis são cor de café; não me deito em roupa tão suja, dizia um hóspede numa pousada do Alentejo.

 

– Pois não lhe dou outros, acudiu o hospedeiro. Têm dormido neles mais de 100 pessoas, e é o senhor o primeiro que se queixa de que estão sujos.

 

Aplico: al acento.

 

Mas onde estão os meus companheiros de viagem? Carlos Ribeiro, Miguel Paes, Fidié, Cabral? Os quatro engenheiros andam desde pela manhã na experiência da ponte dos Louriçais. Júlio Pires, Azevedo e Mouat vão comigo regressando à residência dos Algares, enchendo-me de obséquios e delicadezas, que são minúcio, porque não se supunha não ser isso neles hábito de educação e instinto. À noite regressaram os engenheiros, e estão, todos reunidos num jantar, que acabou às 11 horas da noite, e ao qual presidiu Carlos Ribeiro, que é tido na companhia como a imagem da Providência, tão valiosos são os serviços que lhe tem prestado, gozei o agradável e ilustrativo convívio de tão simpáticos comensais. Gozo fugaz foi esse, pois dali a três horas, às duas da madrugada, deixava-os adormecidos, e na caleche da direcção, com o meu velho amigo Sousa Azevedo, dizia, cheio de saudade e reconhecimento, a eles e àquele famoso império da indústria extractiva:

 

– Adeus. Até mais ver.

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